No poema “Paraíso Perdido”, de John Milton (1608-1674), no canto III, o poeta monta uma cena na eternidade, em que Deus, assentado em...

Série: A gloriosa doutrina da justificação – O que é?

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No poema “Paraíso Perdido”, de John Milton (1608-1674), no canto III, o poeta monta uma cena na eternidade, em que Deus, assentado em Seu trono, vê Satanás voando em direção a Terra para tentar o homem. Inicia-se então um diálogo entre o Pai e o Filho, e, Deus Pai, sabendo da Queda que se sucederia, demonstra Seu propósito de graça, momento em que Deus Filho se oferece, espontaneamente, como Redentor do homem:

Então o Nume-Filho, imerso em glória,
Esplêndido fulgia em grau sem termo:
Nele seu Pai coa divindade toda,
Substancialmente expresso, se ostentava;
Via-se-Ihe no rosto a graça infinda,
Divina compaixão, amor sem metas.
Assim ao Pai falou o Nume-Filho:

“Onipotente Pai, quanto é grandioso
Teu decreto...

“Já pronunciou, ó Pai, tua clemência,
Que em tua graça encontra o homem refúgio:
E a graça tua, — que mais pronta voa
Do que os teus outros apressados núncios
De tuas criaturas ao encontro,
Sem procurada ser, sem ser rogada, —
De seus caminhos perderia o rumo?
Ditoso o que ela toca! Mas sem ela
O homem, perdido e morto no pecado,
Falido devedor, nada possui
Que em sacrifício de expiação ofereça.
Eis-me a mim, pois: — e, pela dele, toma
A minha vida; em mim teu furor ceva;
Vinga-te em mim, como o fizeras no homem.
Por amor dele, e de meu livre impulso,
Deixo teu grêmio, desta glória saio,
E até por fim me sacrifico à Morte...”

Quando por um ato de desobediência, Adão e Eva caíram de seu estado de justiça original, eles se tornaram culpados e em dívida com o Justo Deus. A partir disso, se encontraram no deplorável estado de morte espiritual e em inimizade contra seu Criador e Deus. Eles e todos nós, junto com eles.

Não teríamos mais nenhuma condição de estar diante de nosso Criador em estado de retidão por nossos próprios méritos. Assim, Deus planejou a redenção do Seu povo, imputando os pecados de seu povo a Cristo, na Expiação, e imputando a justiça de Cristo a Seu povo, isso é chamado de Justificação.

Vejamos algumas definições de Justificação:

“Justificação é um ato instantâneo da parte de Deus pelo qual ele considera os nossos pecados perdoados e a justiça de Cristo como pertencente a nós e declara-nos justos à vista dele.” (Wayne Grudem)

“Nós explicamos a justificação simplesmente como uma aceitação pela qual Deus nos recebe em Seu favor e nos estima como pessoas justas; e dizemos que ela consiste na remissão dos pecados e na imputação da justiça de Cristo... A justificação, portanto, não é outra coisa que uma absolvição de culpabilidade daquele que foi acusado, como se sua inocência houvesse sido provada. Já que Deus, portanto, nos justifica pela mediação de Cristo, Ele nos desculpa, não por um reconhecimento de nossa inocência pessoal, mas por uma imputação de justiça; de maneira que, ainda que somos injustos em nós mesmos, somos considerados como justos em Cristo” (João Calvino)

“Se diz que uma pessoa é justificada quando ela é considerada por Deus como livre da culpa do pecado e seu merecido castigo; e como tendo aquela justiça pertencendo-lhe, isso lhe dá o direito à recompensa da vida.” (Jonathan Edwards)

“Justificação é um ato da livre graça de Deus para com os pecadores, no qual Ele os perdoa, aceita e considera justas as suas pessoas diante dEle, não por qualquer coisa neles operada, nem por eles feita, mas unicamente pela perfeita obediência e plena satisfação de Cristo, a eles imputada por Deus e recebidas só pela fé” (Catecismo de Westminster, 1643)

Essas definições nos esclarece que a Justificação é a resposta de Deus a nossa fé em Seu Filho. Quando um pecador arrependido se agarra a Cristo como seu suficiente Salvador, Deus responde a isso perdoando os pecados dessa pessoa e a declarando livre da culpa, lhe imputando a justiça de Cristo, porque a Cristo foi imputado os pecados dessa pessoa quando Ele estava na cruz.

O apóstolo Paulo escreveu que ninguém pode ser justificado pelos próprios méritos, mas somente por meio da fé (O último texto da série tratará melhor sobre isso):

“...o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (Rm. 3.28)

“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm. 5.1)

“... o homem não é justificado por obras da lei e sim mediante a fé em Cristo Jesus” (Gl. 2:16)

O conhecimento dessa doutrina deve aumentar nosso amor por Deus, porque Ele não precisava fazer isso, mas livremente, decidiu fazer. Deus demonstrou infinito amor por seus inimigos ao sacrificar Seu único Filho em favor deles. Um Justo morreu pelos injustos. Foi dessa forma que Deus perdoou os nossos pecados, castigando-os em um Cordeiro puro e inocente e nos vestindo com a gloriosa justiça desse Cordeiro.

O que nos resta fazer diante do conhecimento dessa doutrina? Amar a Deus, lutar para viver de forma agradável a Ele e louvá-lo com todas as nossas forças e capacidades. Como diz a letra de um hino escrito pelo conde Zinzendorf:

“Jesus, tua veste de justiça
É agora minha beleza;
minha gloriosa vestimenta.
Entre os mundos flamejantes,
Envolvido em tua justiça,
com alegria eu Te exaltarei.”


Sonaly Soares



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2 comentários:

  1. Tenha certeza que essa série será esclarecedora ! Parabéns pelo contexto e linguagem e referências. Muito bom marcar presença por aqui. Graça e paz para todas

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    1. Amém, Eva, somos gratas.

      Que o Eterno te abençoe
      Abraço!

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