A equação que relaciona, diretamente, proteção e pureza é demonstrada na Escritura. Deriva-se primeiro dessa equação, o conjunto das ...

Um acesso singular

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A equação que relaciona, diretamente, proteção e pureza é demonstrada na Escritura. Deriva-se primeiro dessa equação, o conjunto das instruções que exortam o homem a guardar o coração, o qual é apresentado nos escritos sapienciais como a sede da personalidade de um indivíduo, de fato:

“Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida.” (Pv 4.23)

Essas palavras foram escritas pelo sábio rei Salomão, o qual havia pedido a Deus um coração cheio de discernimento e ouviu do Senhor as seguintes palavras:

“Farei o que você pediu. Eu lhe darei um coração sábio e capaz de discernir, de modo que nunca houve nem haverá ninguém como você.” (1 Rs 3.12)

Lendo o registro canônico do reinado de Salomão, bem como os escritos desse sábio rei pode-se perceber que a sabedoria dada por Deus a ele se manifesta em nível prático no contexto das responsabilidades e necessidades humanas, isso contrasta com a ideia de que a sabedoria está associada com a inércia de um eremita em contemplação isolado em uma alta montanha. No entender de Croots (2013): 

“embora essa imagem caricata da verdadeira sabedoria seja comum, ela é absolutamente errada. A Bíblia não diz nada sobre esse tipo de sabedoria" (Croots p.14, 2013). 

Salomão afirma no livro de Eclesiastes:

“Por isso dediquei-me a aprender, a investigar, a buscar a sabedoria e a razão de ser das coisas, para compreender a insensatez da impiedade e a loucura da insensatez” (Ec 7:25)

Nesses versos a Escritura apresenta duas verdades; a primeira é que Deus deu a Salomão um coração sábio, a segunda é que Salomão se dedicou a aprender, a investigar, a buscar a sabedoria e a razão de ser das coisas. O fato de Deus dar um coração sábio a Salomão não fez ele ser anestesiado pela letargia na busca pela sabedoria, pelo contrário, encontramos em Eclesiastes o registro da busca de Salomão por sabedoria de um modo distante de qualquer sono indolente. Uma exortação sobre a mulher virtuosa no fim de Provérbios tem fulcro nessa sabedoria.

Convém ajustar o foco sobre as palavras da mãe do rei Lemuel, a primeira exortação dela é:

“Não gaste sua força com mulheres, seu vigor com aquelas que destroem reis.” (Pv 31:3)

O paralelismo sinonímico desse verso permite concluir que a mãe de Lemuel admoesta o filho a evitar mulheres traiçoeiras, que levam os homens a ruína. Olhando no horizonte do livro de Provérbios encontramos advertências sobre a mulher imoral e suas palavras (Pv 7), de fato aquele que cai na armadilha dela se faz semelhante a um animal irracional caminhando à morte.

Em contraste a essas mulheres destruidoras uma personagem é apresentada, ela é preciosa, seu marido confia nela. O homem sábio, em oposição ao tolo, se afasta de mulheres levianas e confia em sua esposa:

“O coração do seu marido confia nela, e não haverá falta de ganho.” (Pv 31.11)

O livro que ensina o homem a guardar o coração sobre todas as coisas mostra o coração do marido confiando na sua esposa. Isso diz muito sobre a espécie de relacionamento que há entre o marido e a esposa virtuosa. Há um acesso singular ao coração do marido que entre os relacionamentos humanos pessoa alguma possui, exceto a esposa. Esse acesso se dar pela confiança que o marido tem nela.

Enquanto o coração do marido confia em sua esposa, o coração do tolo confia na mulher imoral e em suas insinuações (Pv 7). O coração do marido que confia na sua esposa sábia foge da armadilha da mulher leviana, ele não dilui a confiança dele no conjunto de várias mulheres, dando um pouco da sua confiança para sua esposa e um pouco para outras mulheres.

É possível que alguém se oponha à conclusão de que o texto de Pv 31.11 ensina a compreensão de um acesso singular da esposa ao coração do marido, ao argumentar que a Bíblia ensina a poligamia, visto que muitos dos homens do Antigo Testamento tiveram mais de uma esposa.

O que a Bíblia ensina sobre a poligamia é que ela é um desastre, que gera uma série de problemas. Veja Abraão, sua esposa Sara, deu-lhe Agar para que Sara tivesse filhos através de sua serva e isso trouxe grandes problemas (Gn 16.1-4), veja Jacó, ele casou com duas irmãs e isso também trouxe terríveis problemas para todos os envolvidos (Gn 30.1), veja o próprio Salomão, as suas muitas mulheres fizeram ele pecar e como punição o seu grande e poderoso reino se tornou em dois pequenos reinos fracos (1 Rs 11.11), note que Salomão, ainda que tão sábio, não foi absoluto em perfeita sabedoria; ele deu ouvidos às suas muitas mulheres, as quais o induziram a nos dias de sua velhice voltar-se para outros deuses:

“Sendo já velho, suas mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses; e o seu coração não era de todo fiel para com o SENHOR, seu Deus, como fora o de Davi, seu pai.” (1 Rs 11.4)

É, portanto, demonstrado para além de qualquer dúvida razoável que a Bíblia ensina que há um acesso singular no coração do marido à esposa. A poligamia traz consequências terríveis. O homem é sábio ao não acumular mulheres seja esse acúmulo por causa da vontade de ter filhos, lascívia, por causa da formação de muitas alianças com nações estrangeiras, ou seja por que motivo for. O homem sábio compreende que há um acesso singular ao coração dele que deve ser comunicado apenas à sua esposa.

No entender de Goldingay, através de tais palavras a mãe do Rei Lemuel “encoraja a mulher a cumprir ao máximo o que o papel da mulher pode significar” (Goldingay p.919, 2009).

À luz do versículo em questão, concluímos que se cabe ao marido conceder a sua esposa um acesso singular ao seu coração, cabe a esposa ser sábia para fortalecer essa relação de amor e fidelidade.

Daniel Brito
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CARSON, D. A [et al]. Comentário Bíblico: Vida Nova. São Paulo. Vida Nova, 2009
CROOTS, JOHN. Homens sábios: A sabedoria de Provérbios para Homens. São Paulo. Fiel, 2013



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