Aquilo que é belo nos atrai. É delicioso deitar os olhos em uma bela obra de arte, ver seus contornos e contrastes, ter os desejos provo...

A beleza nos atrai

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Aquilo que é belo nos atrai. É delicioso deitar os olhos em uma bela obra de arte, ver seus contornos e contrastes, ter os desejos provocados pela beleza da imagem, se deixar ser encantado pela criatividade do artista. Por vezes, a emoção é tocada através de uma pintura, um filme, uma poesia e somos levados a algo além do concreto.

O texto de Gênesis ao narrar a criação dos campos pelo Senhor Deus, diz que Ele criou toda a árvore agradável à vista. O Éden era um jardim de delícias, um jardim belo:

“E o Senhor Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista, e boa para comida; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal.” (Gênesis 2:9)

O escritor de Gênesis faz um juízo estético sobre o que Deus havia feito brotar, era: agradável à vista. Imagine por um instante a beleza das primeiras flores, dos primeiros pomares, a harmonia das partes, a delicadeza dos contornos. Toda essa beleza é obra do Senhor e deliciosa de se contemplar.

O escritor de Gênesis além de atestar a beleza dos campos também registra Deus se agradando do que fizera. Os campos foram criados pelo Senhor Deus no terceiro dia da criação, nesse dia Deus ao ver sua obra avaliou que era boa (Gn 1.11-13).

No sexto dia, Deus criou a coroa da sua criação - o homem (Gn 1.26-31), Deus se agradou muito do que fizera, deu ao homem a missão de cultivar e guardar o jardim (Gn 2.15) e uma proibição também (Gn 2.16-17). O homem deveria preservar a beleza do jardim, o guardando, e estender ao máximo a beleza do mesmo, o cultivando.

Todavia, o homem falhou, terrivelmente, em sua missão ao desobedecer a Deus comendo do fruto proibido. A serpente, a mais astuta alimária que o Senhor Deus havia criado, enganou Eva que tomou do fruto e deu a seu marido que também comeu:

“E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela.” (Gênesis 3:6)

A expressão “agradável aos olhos” aparece aqui mais uma vez. Eva havia se agradado do que viu, havia beleza presente na árvore. Entretanto seu desejo não havia sido despertado à contemplação da obra do Criador, havia sido despertado para algo que não deveria ser; para tomar do fruto e comer. Quando seu marido comeu se consumou a Queda do primeiro casal e de toda a humanidade.

A árvore era agradável à vista, mas comer seu fruto não poderia acontecer sem haver pecado, sem haver transgressão da Lei que havia sido dada a Adão. Adão e Eva tinham, então, diante de si a opção de contemplar a beleza dentro dos limites éticos delineados pela Lei ou se apropriar da beleza buscando levá-la para além desses limites.

A existência de tais opções deriva-se da equação que relaciona diretamente beleza e ética. Adão e Eva comeram do fruto proibido e assim desconsideraram os limites éticos que a beleza exige. A beleza clama por uma justificativa ética que a sustente como uma treliça sustenta uma videira, mas os primeiros pais não fizeram caso disso.

O pecado é apresentado no episódio da Queda na esfera judicial como uma transgressão à Santa Lei de Deus, na esfera da ética como uma maldade e na esfera da estética como uma negação da justificativa ética que a beleza exige, originando assim a feiura. Nesse contexto Rookmaaker afirma:

“A beleza sempre existirá onde há verdade, amor, vida e realidade, ao passo que pecado, mentira, ódio e morte (em seu sentido mais profundo), sendo realidades negativas, são feias e levam à feiura”.1

O homem após a Queda foi expulso do Éden, a criatura caiu, desprezou a verdadeira bondade e beleza. Os erros cometidos no Éden por nossos primeiros pais não são diferentes daqueles cometidos pelos homens do nosso tempo. A sociedade contemporânea possui valores relativos e irracionais de ética, moral e não menos de estética. A arte em dias de irracionalidade também é irracional e despreza justificativas éticas de qualquer natureza buscando estabelecer a beleza a despeito do que é justo ou moralmente correto. É uma arte que se levanta não apenas contra pressupostos de um século passado, é um movimento de ruptura com a moral judaico-cristã, ou do que ainda temos dessa moral em nossos dias.

Não é difícil encontrar atualmente filmes, músicas, exposições em museus, peças de teatro, entre outras expressões artísticas repercutindo bastante, atraindo muitas pessoas, que se colocam como obras em oposição a existência de limites éticos à arte ou como meio de atacar antigos valores éticos querendo apontar para novos

O homem foi expulso do Éden, mas não sem uma promessa de redenção à humanidade. O que leva a pensar se há solução para os homens de nosso tempo, pra nossa cultura, ou o que restou dela. Há. Tal solução vem através do Evangelho de Cristo. O Evangelho é o poder do Onipotente para a salvação do que crê (Rm 1.16-17), através do Evangelho somos levados à restauração, em Cristo, do relacionamento com Deus que fora perdido em Adão.

Se os primeiros pais extrapolaram os limites éticos que abarcavam a beleza, degenerando ela em absoluta feiura, em Cristo somos levados de volta aos limites éticos que delineiam os contornos da real beleza, em Cristo a feiura que o homem introjetou na criação através do pecado é expurgada do mundo.

É necessário em nosso tempo refletirmos sobre a estética, a ética e a relação entre ambas, para que não mais se retorne ao erro dos primeiros pais no Édem, uma reflexão que seja centrada em Cristo, que se dê dentro dos marcos balizadores de Seu ensino.

Não uma reflexão que seja pautada pela irracionalidade dos homens e da arte de nosso tempo, mas que saiba dialogar com estes, isto é, que saiba falar com as pessoas de hoje sobre o que elas pensam, as lendo e as questionando, apresentando o Evangelho como única forma de fugir da irracionalidade de nosso tempo, como único meio de contemplar de fato a real beleza.


Daniel Brito
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1Hans R. Rookmaaker - Filosofia e estética: Editora Monergismo, 2018.



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