A graça que ofusca o mérito humano

23:23

Imagine neste exato momento que você esteve vários dias e noites à deriva no mar depois de um naufrágio terrível que conseguiu escapar milagrosamente, sem qualquer explicação óbvia. Ou, que diante de meses lutando contra o desemprego, com uma família pra cuidar e filhos pra alimentar, conseguiu o emprego tão desejado e justamente na área que sempre sonhou. Imagine que somente você conseguiu escapar de um desabamento que destruiu drasticamente tudo à sua volta ou que conseguiu se livrar em um acidente que acabou com todo o transporte e você conseguiu sobreviver ileso. Em qualquer uma destas hipóteses imaginárias que estivéssemos, o sentimento que nos invadiria seria de extrema gratidão e alívio por ter conseguido escapar e estar bem!

Mas, por que estou trazendo estas hipóteses? Porque nós estivemos sim em uma situação deplorável, da qual milagrosamente fomos libertos, infinitamente pior que qualquer situação que enfrentarmos nesta vida. Estivemos mortos e agora estamos vivos, estivemos condenados e agora salvos, por causa da graça de um Deus bondoso que interveio em nossa miséria e nos alcançou em seu amor.  O problema é que esquecemos. O problema é que vivemos como se tivéssemos direitos diante de Deus, quando de fato não merecemos nada.

É comum que já tenhas ouvido frases como: "Você merece o melhor". "Você não merece passar por isso". "Ore e Deus irá te dar o que você merece". Todavia, quem somos nós para julgarmos direitos quando na verdade tudo o que fazemos é afrontar um Deus santo? Somos pecadores por natureza e, sendo assim, o que merecemos é o inferno!

Pecamos contra Deus (Sl 51:4, Rm 3:10), temos uma natureza depravada que precisa ser golpeada e mortificada todos os dias (Gl 5:17, Cl 3:5). Naturalmente, não temos prazer nas coisas espirituais e facilmente nos distanciamos das orientações divinas, necessitando que Ele nos ajude a perseveramos em Seus caminhos (Ez 36:27, Rm 7:18-19, Sl 119:10). Logo, não temos nenhuma razão para Deus olhar pra nós e nos abençoar simplesmente porque merecemos!

"Quão poucas são as grandes aflições com que nos deparamos nesta vida... são menos do que merecemos... Os maiores problemas e calamidades exteriores que enfrentamos... precisam parecer insignificantes diante da miséria que merecemos... Um homem pode se deparar com perdas muito grandes... seu gado talvez morra, sua colheita mirre, seu celeiro se incendeie, todos os seus bens sejam consumidos pelo fogo; e ele, levado de uma vida confortável a um estado de pobreza, necessidade e desventura. Isto é muito difícil de ser suportado, mas, infelizmente, quão poucas razões essas pessoas terão para lamentar, se realmente considerarem que essa situação é tão insignificante, quando comparada com a eterna destruição sobre a qual somos informados.”¹

Não temos razões para reclamar quando entendemos que tudo o que temos é por meio da graça e que, por mais difícil que seja nossa situação, fomos libertos de algo muito pior sem merecermos e fomos agraciados com a vida eterna. E ainda mais, Aquele que nos resgatou teve que morrer, Ele era o único que não merecia, mas sofreu a punição para que pudéssemos ser abençoados. Nossa salvação custou a morte do Filho de Deus e, por causa Dele, Deus não nos concede o que merecemos, mas, ao contrário disso, Ele nos concede o que não merecemos.

"Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniquidades." (Sl 103:10)

Imagine se Deus nos tratasse conforme nossos pecados e com o que merecemos? "Se tu, SENHOR, observares as iniquidades, Senhor, quem subsistirá?" (Sl 130:3). Todavia, o salmista prossegue:

"Pois assim como o céu está elevado acima da terra, assim grande é o seu amor para com os que o temem. Quanto longe está o oriente do ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões. Como um pai se compadece de seus filhos, assim o SENHOR se compadece daqueles que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura; e se lembra de que somos pó." (Sl 103:11-14)

Ele é um Deus amoroso e seu amor está além de nosso próprio entendimento. Ele é compassivo como um pai terno, e também gracioso e misericordioso. Isso é tudo o que precisamos! Por causa Dele que estamos vivos, e apesar do que fazemos e somos, Ele insiste em nos conceder misericórdia.

"As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã." (Lm 3:22-23)

"Não temos direito de reivindicar um tratamento favorável. Não temos qualquer direito de pedir a Deus qualquer coisa que seja, a não ser misericórdia. Eu não mereço um tratamento favorável. Não. Eu mereço as chicotadas, os pregos, a coroa de espinhos, a cruz e uma eternidade separada dele. Quando considero a minha ficha diante do Pai, não tenho qualquer argumento. Tudo o que consigo fazer é pedir a ele que não me dê o que eu mereço, que seria a condenação, mas, em vez disso, que me dê o que eu não mereço: misericórdia."²

Suas misericórdias sobre nós são novas a cada manhã. Isso é sobremodo assustador. Deus nos dá exatamente o que precisamos, sem razão alguma além de que Ele insiste em nos amar! 

Ele também nos deu a assombrosa promessa de que bondade e misericórdia nos seguirão todos os dias de nossas vidas! (Sl 23:6). Graça inefável. Amor incondicional. Deus incomparável. Só nos resta duas coisas mediante isto: gratidão incessante e louvor eterno! Concluo com as palavras de John Piper:

"Medite em como você reagiria, se vivesse, hora após hora, na consciência sincera de que você foi resgatado de uma morte horrível e do sofrimento eterno; e de que, a despeito de não merecer qualquer ajuda, você é abençoado com misericórdia abundante, a cada dia (até nas situações difíceis) e se tornará perfeita e eternamente feliz na era vindoura."

Thayse Fernandes
___________________
¹ The Works of Jonathan Edwards, New Haven: Yale University Press, 1997, p. 321
² FITZPATRICK, Elyze. Um coração inabalável: experimentando o consolo de Deus nas tempestades da vida. São José dos Campos, SP: Fiel, 2016.

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