“Os que negam a si mesmos são mais felizes”


Poucas frases são tão antagônicas ao “espírito do nosso tempo”, quanto essa do puritano Jeremiah Burroughs:”Os que negam a si mesmos são mais felizes”1. O que hoje poderia ser mais subversivo do que dizer para as pessoas que devem negar todos os seus desejos que estiverem em desacordo com a vontade de Deus? E mais, que isso lhes fará felizes! Isso é o oposto da lógica da nossa cultura secularizada que entende que felicidade consiste na satisfação dos nossos mais variados desejos, não importando o que seja: ”Se te faz feliz é o que importa”, ou “se te faz feliz não é errado”. Quem nunca ouviu ou leu frases dessa natureza?


O natural da nossa natureza caída é buscar satisfazer-se, por isso que é tão impopular a autonegação, na verdade, chega a soar como loucura, afinal, todos querem ser felizes e se os meus desejos me fazem acreditar que ao concretizá-los serei feliz, então, é claro, que me empenharei com determinação em realizá-los e rejeitarei qualquer ideia que lhes contradigam. Quando estamos embalados por essa mentalidade, começamos a acreditar, ainda que veladamente, que viver para Deus e servi-lo não nos faz felizes, que são fardos pesados e enfadonhos. Em seguida, acontece o óbvio, perdemos a alegria da vida cristã e passamos e encarar os deveres de nossa santa vocação como desagradáveis.

 

O ensino do Evangelho é radical e estabelece a autonegação para quem quiser seguir a Cristo:

 

“Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me.” (Marcos 8:34)


O que significa negar-se a si mesmo? O contexto da passagem parece indicar que Nosso Senhor está falando da nossa identidade. Quando diz para “negar-se a si mesmo”, é como se estivesse dizendo para não alicerçarmos a nossa identidade (quem nós somos) em nós mesmos, naquilo que fazemos, em nossas conquistas, pois no versículo 36, Ele questiona com fins de constatação, o que adianta a alguém ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma. Nós somos naturalmente inclinados a depositar nosso senso de valor sobre nossas conquistas, de algum modo, sentimos que só seremos alguém e nos sentiremos realizados quando conseguirmos determinadas coisas, casamento e filhos ou uma carreira bem sucedida, seja o que for, o erro é o mesmo em todos os casos, basear nossa identidade naquilo que fazemos, em nosso potencial. Isso é uma grande cilada.

 

Não importa o que você conquistar nessa vida, nada do que fizer será suficiente para você repousar satisfeito, nenhum status ou boa reputação poderá te dar a certeza de quem você é. Jesus está dizendo que só há uma forma de você se encontrar: N’Ele! Em Jesus Cristo está o teu verdadeiro ser, quem tu realmente és.


C. S. Lewis escreveu sobre isso de uma forma linda:

 

“Quanto mais tiramos do caminho aquilo que agora chamamos de "nós mesmos" e deixamos que Ele tome conta de nós, tanto mais nos tornamos aqui­lo que realmente somos... nos­sos verdadeiros seres estão todos n’Ele, esperando por nós. De nada vale procurar "ser eu mesmo" sem ele. Quan­to mais resisto a Ele e tento viver sozinho, tanto mais me deixo dominar por minha hereditariedade, minha criação, meus desejos naturais e o meio em que vivo. Na verdade, aquilo que chamo com tanto orgulho de "eu mesmo" é simplesmente o ponto de encontro de miríades de cadeias de acontecimentos que não foram ini­ciadas por mim e não poderão ser encerradas por mim. Os desejos que chamo de "meus" são meramente os de­sejos vomitados pelo meu organismo físico, incutidos em mim pelo pensamento de outros homens ou mes­mo sugeridos a mim pelos demônios. [...] Entregue-se, pois assim você encontrará a si mesmo. Perca a sua vida para salvá-la. Submeta-se à morte, à morte cotidiana de suas ambições e dos seus maiores desejos e, no fim, à morte do seu cor­po inteiro: submeta-se a ela com todas as fibras do seu ser, e você encontrará a vida eterna. Não guarde nada para si. Nada que você não deu chegará a ser verdadei­ramente seu. Nada que não tiver morrido chegará a ser ressuscitado dos mortos. Se você buscar a si mesmo, no fim só encontrará o ódio, a solidão, o desespero, a fúria, a ruína e a podridão. Se buscar a Cristo, o encontrará; e, junto com ele, encontrará todas as coisas.”2

 

Percebe por que o Senhor Jesus está dizendo que devemos negar a nós mesmos? Ele quer que mortifiquemos nossa velha natureza, que busca colocar em nossas obras o valor de quem somos, para que encontremos tudo n’Ele. Tim Keller comentando sobre isso escreveu:

 

Uma vez que seus olhos enxerguem o Filho de Deus amando você dessa maneira, uma vez que seja tocado por isso de forma visceral e existencial, começará a adquirir uma força, uma certeza, uma noção de seu próprio valor e singularidade, algo que não se baseia no que você esteja fazendo, no fato de ser amado ou não por alguém, se perdeu peso ou quanto dinheiro tem no banco. Você está livre de tudo isso – a velha forma de encarar a identidade se foi.”3

 

É por essa razão que os que negam a si mesmos são mais felizes, pois eles verdadeiramente se encontram, repousam em Cristo e vivem satisfeitos com a vontade de Deus para eles, mas quando rejeitamos a autonegação só nos vemos contentes quando Deus faz o que desejamos, nossos desejos egoístas nos sufocam, nos levando a vagar de um lugar para outro sem nunca encontrar descanso.

 

A autonegação não é fácil, mas é o caminho que todos que estão em Cristo devem trilhar, pois quando não negamos a nós mesmos, negamos a Cristo. Agora mesmo, você sabe que há desejos em seu coração que estão em conflito com o Evangelho. Por que você não faz dessa a oportunidade para experimentar a realidade a que Cristo nos chama?

 


Sonaly Soares Brito

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1Jeremiah Burroughs – Aprendendo a estar contente

2C. S. Lewis – Cristianismo Puro e Simples

3Tim Keller – A cruz do Rei

 

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