Você já se perguntou o que é o tempo? Um trecho das confissões de Agostinho diz o seguinte: “Que é, pois, o tempo? Se ningué...

Vivendo na perspectiva da eternidade

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Você já se perguntou o que é o tempo? Um trecho das confissões de Agostinho diz o seguinte: “Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; mas se quiser explicar a quem indaga, já não sei”. Salomão, o sábio rei filho de Davi, escreveu em Eclesiastes 3 um trecho bastante conhecido sobre o tempo. Eclesiastes faz parte dos livros que conhecemos como poéticos ou de sabedoria, seu conteúdo deixa muitas pessoas intrigadas por causa do tom negativo, do pessimismo que emana do livro de modo geral.

O autor menciona a falta de sentido, desespero, cansaço, e outros absurdos que perpassam a vida humana. Ele demonstra um propósito didático, fundamentando seu ensino na observação e na experiência. Especificamente no capítulo supracitado, Salomão afirma que há um tempo certo para cada coisa, para isso, utiliza-se de sentenças repletas de contrastes que mostram algumas circunstâncias e fragilidades humanas. Mas, voltemos agora nossa atenção para o verso 11:
Ele fez tudo apropriado a seu tempo. Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade; mesmo assim este não consegue compreender inteiramente o que Deus fez.
O que é a eternidade? Deus a colocou em nosso coração, mas de fato não podemos compreendê-la totalmente. Se é difícil entender o tempo, imagine a eternidade? Não entender bem a eternidade pode nos levar a viver apenas em uma perspectiva terrena. Sabemos que é real, mas não conseguimos captá-la, viver na perspectiva dela. Alguém já utilizou uma figura que eu gosto sempre de lembrar: pense em uma corda enorme com uma das pontinhas pintada de vermelho. A minúscula parte vermelha diz respeito à nossa vida e todo o restante corresponde à eternidade. O que se faz nesta parte vermelha, afeta diretamente a maior parte da corda. O problema é que nos preocupamos muito mais com a parte menor e vivemos em função do que acontece e acontecerá nesse curto espaço, como se só existisse a pontinha vermelha. Não é loucura? Esquecemos exatamente a maior parte da corda, deixamos de viver na perspectiva da eternidade e passamos a colocar todo o nosso foco nessa vida tão breve! *

Você não deve ignorar a dádiva da vida que Deus te deu. Trata-se de desfrutar cada segundo estando certa de que não é só isso, de que a nossa esperança não se limita a esse mundo! A forma que vivemos aqui determinará como vamos existir eternamente. Essa vida vai passar rápido, a eternidade, onde quer que você esteja, não passará.

Recorde as palavras de Paulo:
 “Assim, fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno.” (2 Co 4.18)
 Dado o fato de que as coisas visíveis são transitórias, não devemos fixar o nosso olhar nelas. Esta nossa casa é passageira, mas temos uma casa eterna construída por Deus e Ele mesmo nos preparou para isso (2 Co 5.1-5).

Manuel Bandeira, em seu poema “Vou-me embora pra Pasárgada”¹, expõe o anseio do eu-lírico por outra casa, por um lugar de aventura, delícias e felicidade, onde pode fazer o que bem entender como bem entender, onde pode voltar às práticas da infância e onde a inconsequência não é problema. Entretanto, mesmo tendo a amizade do rei, lá a alegria não é plena. O escapismo expresso pelo modernista mostra quão limitada é a esperança declamada. À parte dos detalhes e explicações contextuais, o referido poema deixa claro: Este mundo não é suficiente, embora vivamos aqui, temos inculcado o “vou-me embora”. É por isso que tanto me encanta a releitura de Pasárgada que diz:

Vou me mudar pra Pasárgada
Lá sou amigo do Rei
Lá a ternura é a ordem e a lei
[...]
 Vou para o Reino de Nárnia
Vou para a Terra de Oz
Onde o ribeiro da paz encontre a foz

Vou para o reino de Atlândida
Vou para a terra sem mal
Vida não mais dividida e desigual
[...]
Não quero a glória do mundo
Quero uma terra melhor ²

A esperança aqui está na alegria plena e verdadeira, na justiça, na ordem, na paz. Nesse caso, Pasárgada, Nárnia, Oz e Atlântida são referências da literatura que conhecemos, utilizadas para enfatizar que estamos de passagem para um lugar infinitamente melhor. Como afirma a célebre frase de C. S. Lewis:
“Se descubro em mim um dese­jo que nenhuma experiência deste mundo pode satis­fazer, a explicação mais provável é que fui criado para um outro mundo.” ³
Para ele, os prazeres desse mundo não existem para satisfazer esse desejo, mas para despertá-lo e sugerir a verdadeira satisfação. Assim, é preciso ter cuidado para não desprezar as bênçãos terrenas, nem as tomar como primordiais.
“Tenho de man­ter viva em mim a chama do desejo pela minha verda­deira terra natal, a qual só encontrarei depois da morte; e jamais permitir que ela seja arrasada ou caia no esque­cimento. Tenho de fazer com que o principal objetivo de minha vida seja buscar essa terra e ajudar as outras pessoas a buscá-la também.” ³
O Senhor colocou a eternidade em nosso coração, e mesmo que não possamos entendê-la perfeitamente, podemos viver com uma perspectiva que não se limita apenas a coisas visíveis. Não gaste sua vida pensando apenas na pontinha vermelha da corda, é tolice. Enxergue a corda por inteiro e viva de modo que esta percepção se evidencie em suas atitudes. Oro retomando as palavras atribuídas a Jonathan Edwards: que Deus grave a eternidade em nossos olhos!

Juliany Correia

³ LEWIS, C.S. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2014, p. 182






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